Em 1994, o mundo quase conheceu uma versão do Quarteto Fantástico que jamais viu a luz do dia. Produzido com orçamento limitado e lançado apenas em cópias piratas, aquele filme nunca teve a chance de apresentar ao público a primeira família da Marvel com o cuidado que merecia. Infelizmente, mesmo quando a franquia ganhou produções oficiais, a situação não melhorou muito: a versão de 2005 apostou em humor raso e efeitos que envelheceram mal, enquanto o sombrio reboot de 2015 se afundou em problemas de bastidores e uma trama sem alma. Décadas depois, finalmente recebemos algo que soa como redenção: Quarteto Fantástico: Primeiros Passos é um filme que entende a essência de seus personagens, honra sua origem e entrega uma experiência visualmente marcante e emocionalmente envolvente.
Dirigido por Matt Shakman, conhecido por seu trabalho em WandaVision, o longa carrega ecos da série em sua habilidade de equilibrar o inusitado com o emocional. A estética retrofuturista, que mistura elementos de ficção científica dos anos 60 com tecnologia contemporânea, dá identidade própria ao filme, fugindo do visual genérico que contaminou algumas fases recentes do Universo Cinematográfico Marvel. É uma decisão artística ousada, que evoca tanto o charme da Era de Prata dos quadrinhos quanto a criatividade cinematográfica de um estúdio que busca se reinventar.
Mas o coração do filme está no elenco. A química entre os quatro protagonistas é palpável desde os primeiros minutos, e isso é essencial quando falamos de um grupo tão interdependente. Reed Richards (Pedro Pascal) traz um ar de genialidade ansiosa, mas também uma carga emocional densa: ele é um homem obcecado por proteger o mundo, mesmo que isso signifique tomar decisões moralmente questionáveis. O roteiro equilibra bem essa ambiguidade, mostrando um líder idealista, mas não ingênuo. Uma evolução clara em relação à pálida e genérica versão vivida por John Krasinski em Doutor Estranho no Multiverso da Loucura, que entrega de maneira verbal as principais fraquezas de seus aliados para a ameaça que enfrentam. Já Johnny Storm (Joseph Quinn) injeta carisma e leveza, funcionando como o alívio cômico do grupo, trazendo humor na hora certa, sem errar na dose. O filme acerta ao moldá-lo como um mulherengo sem apelar para os clichês datados. Seu charme não é grosseiro, mas genuíno, e ele conquista mais pelo bom humor do que por arrogância.Ben Grimm (Ebon Moss-Bachrach), por sua vez, é a âncora emocional da equipe com seu humor amargo e generosidade discreta, carregando no olhar a dor de alguém que perdeu muito, mas que continua fiel aos amigos. Mas é Sue Storm, vivida por Vanessa Kirby, quem brilha intensamente.
Vanessa entrega uma Sue forte, empática e estratégica, que finalmente ganha o protagonismo que por tantas vezes lhe foi negado nas versões anteriores. Sua atuação oscila entre a delicadeza emocional e a força interior com uma precisão que dá à Mulher-Invisível um peso dramático inédito nos cinemas. A direção acerta em dar a ela o centro moral da narrativa, elevando não apenas sua personagem, mas o filme como um todo.

Outro grande acerto está na construção do vilão Galactus (Ralph Ineson). Longe de ser apenas uma força destrutiva, o antagonista ganha contornos quase mitológicos, cuja presença é sentida muito antes de ser revelado, criando uma tensão crescente que ecoa filmes como Tubarão ou Apocalypse Now. A escala do perigo é gigantesca, mas o impacto emocional reside no modo como cada membro do grupo lida com essa ameaça à sua maneira, revelando nuances sobre o que significa ser parte de uma família escolhida.
A família, aliás, é o grande tema do filme. Não a família no sentido genérico ou idealizado, mas como vínculo forjado em meio ao trauma, à descoberta e ao sacrifício. É emocionante ver como os quatro se apoiam, se desafiam e, acima de tudo, se entendem. O roteiro é hábil ao construir esses laços sem cair na pieguice, valorizando os pequenos gestos, os olhares cúmplices, os silêncios compartilhados.
Julia Garner entrega uma performance magnética como a Surfista Prateada, reinventando o personagem com uma mistura de serenidade cósmica e inquietação interna. Sua presença em cena é hipnotizante, com uma linguagem corporal quase etérea que contrasta com a intensidade contida de sua voz. Garner transmite a dualidade da personagem ao mesmo tempo mensageira do fim e vítima de uma força maior, com uma sensibilidade rara em filmes do gênero. Longe de ser apenas um avatar do vilão, sua Surfista Prateada tem agência, conflito e peso dramático, tornando-se uma figura trágica e fascinante que rouba a atenção sempre que aparece.
No entanto, Quarteto Fantástico: Primeiros Passos não é isento de falhas. A maior delas talvez seja a dificuldade em gerar tensão em momentos que, em teoria, deveriam ser impactantes. Isso se deve, em parte, ao excesso de informação prévia sobre o futuro do Universo Cinematográfico da Marvel. Essa previsibilidade compromete dois dos momentos mais intensos do terceiro ato. Apesar de bem executadas tecnicamente, ambas as sequências soam artificiais em sua tentativa de provocar choque. É como se o filme pedisse uma emoção que o público já não pode oferecer, dado o conhecimento prévio do destino dos personagens.
Ainda assim, esses tropeços não são suficientes para apagar o brilho da produção. O visual é arrebatador, com cenários que misturam o retrô com o surreal de forma coesa, lembrando que o Quarteto sempre foi mais próximo da ficção científica do que da ação urbana tradicional. Cada detalhe do design de produção parece meticulosamente pensado para remeter aos quadrinhos clássicos de Jack Kirby, mas com uma roupagem contemporânea e sofisticada.
A trilha sonora, com seu tom nostálgico e orquestral, complementa esse universo com beleza e emoção. Ela acentua a sensação de descoberta, tanto científica quanto emocional, que define o espírito do grupo. As faíscas de humor também funcionam, pontuando os diálogos com leveza, sem jamais comprometer o tom mais maduro da narrativa.
É louvável ver como a Marvel, mesmo em meio a um período de reconstrução, consegue apresentar um filme que respeita a inteligência do espectador e valoriza o desenvolvimento de personagens acima do espetáculo vazio. Shakman entrega uma história com alma, ancorada no afeto entre os protagonistas e na ideia de que o verdadeiro poder do Quarteto Fantástico não está em suas habilidades, mas em sua conexão inquebrantável.
Quarteto Fantástico: Primeiros Passos é um sopro de criatividade e afeto num universo que, por vezes, parecia ter se esquecido de onde veio. É o início de uma nova fase mais sensível, mais estranha e, acima de tudo, mais humana. Um lembrete de que, antes de serem super-heróis, eles são uma família. E talvez isso seja o maior superpoder de todos.







